sábado, 28 de abril de 2018


A linguagem é um fato social


Quando falamos em alfabetização de uma criança, nos referimos a um falante que entende e se expressa na língua portuguesa, mas que ainda não sabe escrever nem ler. Estes dois atos linguísticos são novos para ela e a escola se torna um atrativo na aprendizagem de novos códigos e significados dentro da manipulação institucional da língua.

No entanto, a escola tende a basear o processo de alfabetização em métodos que valorizam a gramática normativa, sem partir do conhecimento que a criança tem de sua fala e da fala de seus colegas. Partir simplesmente de um abecedário, sem fazer a distinção gradativa entre fala e escrita, conduz apenas a um treinamento que não valoriza a compreensão de como a língua funciona. Como a linguagem é um fenômeno dinâmico, regras de ortografia são importantes, mas não contemplam efetivamente as mudanças da língua no cotidiano.

A escola, como instituição, gira em torno da escrita, mesmo que se faça a distinção entre fala e escrita. Desta forma, apesar dos professores desenvolverem a oralidade em suas práticas, normalmente tendem a ensinar a “falar bonito”, no padrão em que se escreve, pois a aparência da escrita se sobrepõe ao seu significado. Contudo, se queremos que nossos alunos aprendam a pensar, precisamos interligar conteúdo e realidade, fazendo com que o aluno entenda o que pertence à fala e o que pertence à escrita, pois a linguagem é um fato social e se perpetua através das convenções sociais atribuídas para ela. Nas palavras de Cagliari (2009, p. 44):

Se a escola tem por objetivo ensinar como a língua funciona, deve incentivar a fala e mostrar como ela funciona. Na verdade, uma língua vive na fala das pessoas e só aí se realiza plenamente. A escrita preserva uma língua como um objeto inanimado, fossilizado. A vida de uma língua está na fala. (CAGLIARI, 2009, p. 44).

Então, se levarmos em consideração que “a vida de uma língua está na fala”, o melhor que a escola pode oferecer aos seus alunos deve estar pautado na leitura, visto que ela é a extensão da escola na vida das pessoas. Ao mesmo tempo, a leitura é uma atividade linguística baseada na decifração e decodificação da escrita, não apenas ser “a fala da escrita”. Portanto, fica a certeza de que precisamos refletir muito sobre o formato escolar da alfabetização hoje e de como ensinar língua portuguesa privilegiando não os métodos, mas sua funcionalidade na vida.


REFERÊNCIAS:

CAGLIARI, Luiz Carlos. Alfabetização e linguística. São Paulo: Scipione, 2009.    

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