A linguagem é um fato social
Quando falamos em alfabetização
de uma criança, nos referimos a um falante que entende e se expressa na língua
portuguesa, mas que ainda não sabe escrever nem ler. Estes dois atos linguísticos
são novos para ela e a escola se torna um atrativo na aprendizagem de novos
códigos e significados dentro da manipulação institucional da língua.
No entanto, a escola tende a
basear o processo de alfabetização em métodos que valorizam a gramática
normativa, sem partir do conhecimento que a criança tem de sua fala e da fala
de seus colegas. Partir simplesmente de um abecedário, sem fazer a distinção
gradativa entre fala e escrita, conduz apenas a um treinamento que não valoriza
a compreensão de como a língua funciona. Como a linguagem é um fenômeno
dinâmico, regras de ortografia são importantes, mas não contemplam efetivamente
as mudanças da língua no cotidiano.
A escola, como instituição, gira
em torno da escrita, mesmo que se faça a distinção entre fala e escrita. Desta
forma, apesar dos professores desenvolverem a oralidade em suas práticas,
normalmente tendem a ensinar a “falar bonito”, no padrão em que se escreve, pois
a aparência da escrita se sobrepõe ao seu significado. Contudo, se queremos que
nossos alunos aprendam a pensar, precisamos interligar conteúdo e realidade,
fazendo com que o aluno entenda o que pertence à fala e o que pertence à
escrita, pois a linguagem é um fato social e se perpetua através das convenções
sociais atribuídas para ela. Nas palavras de Cagliari (2009, p. 44):
Se a escola tem por
objetivo ensinar como a língua funciona, deve incentivar a fala e mostrar como
ela funciona. Na verdade, uma língua vive na fala das pessoas e só aí se
realiza plenamente. A escrita preserva uma língua como um objeto inanimado,
fossilizado. A vida de uma língua está na fala. (CAGLIARI, 2009, p. 44).
Então, se levarmos em
consideração que “a vida de uma língua está na fala”, o melhor que a escola
pode oferecer aos seus alunos deve estar pautado na leitura, visto que ela é a
extensão da escola na vida das pessoas. Ao mesmo tempo, a leitura é uma
atividade linguística baseada na decifração
e decodificação da
escrita, não apenas ser “a fala da escrita”. Portanto, fica a certeza de que
precisamos refletir muito sobre o formato escolar da alfabetização hoje e de
como ensinar língua portuguesa privilegiando não os métodos, mas sua
funcionalidade na vida.
REFERÊNCIAS:
CAGLIARI, Luiz Carlos. Alfabetização e linguística. São Paulo:
Scipione, 2009.



